HIPNOSE CLÍNICA

O que é Hipnose?

A hipnose é uma técnica reconhecida pela ciência moderna no tratamento de transtornos psicossomáticos e emocionais

Em 1998, foi validada após ter sido verificada sua atuação positiva no cérebro através de experiências realizadas na Universidade de Harvard (EUA). É uma técnica amplamente pesquisada cientificamente, com aplicações e resultados bem consolidados nas áreas da medicina e psicoterapia. A melhor maneira de compreender a hipnose é a de que é um estado de concentração no qual a mente se abre para a aprendizagem plena e uma percepção mais ampla e profunda da realidade.

Neste estado de concentração, a sua capacidade de comunicação consigo mesmo(a) é ampliada, assim como a compreensão sobre a própria vida e seu mundo interno. A hipnose facilita nos concentrarmos nas coisas que queremos mudar e nas melhores formas em que o podemos fazer, livre de pensamentos limitantes ou ansiosos. Durante a hipnose, você fica consciente o tempo todo e está sempre no controle da situação.

MINHA COMPREENSÃO SOBRE A HIPNOSE

Dizem que a forma como compreendo a hipnose é um pouco diferente do habitual, e neste texto, irei compartilhar um pouco da minha visão sobre como a hipnose acontece, através de uma teoria recente da neurociência e ciência cognitiva: o Processamento Preditivo.

Tradicionalmente, aprendemos a hipnose por meio de analogias que envolvem o consciente, o subconsciente e a faculdade crítica. Mas, o que seriam essas metáforas na prática? Como se pode explicar e compreender o funcionamento da hipnose ou transe através de uma teoria científica? Estas duas perguntas representam os pontos centrais desse artigo, que procurará demonstrar a hipnose de um novo ângulo.

 

O Processamento Preditivo

Até pouco tempo atrás se acreditava que o nosso cérebro fosse reativo -recebemos um estímulo e este estímulo faz com que o nosso cérebro reaja- mas o que se confirmou na última década é que o nosso cérebro, é na verdade, uma máquina preditiva. Peter Sterling em seu livro Principles of Neural Design demonstra que o nosso cérebro evoluiu com uma única e valiosa missão: gerenciar e economizar energia preventivamente, na medida em que permite o organismo a funcionar bem para os seus propósitos de desenvolvimento e a continuação da espécie. Uma engenharia incrível foi aplicada pela natureza, permitindo que nossos cérebros realizem proezas tremendas em milésimos de segundo, com um mínimo consumo de energia.

Para que isso fosse possível, nosso cérebro não podia ser reativo. Não poderia ficar inerte aguardando um estímulo para saber o que fazer em seguida. Em muitas situações que necessitam da performance do organismo, tal adaptação reativa nos levaria à morte! Então a natureza criou uma solução, dotando nosso cérebro com a capacidade de prever e simular eventos futuros probabilisticamente, e sem depender de um processamento formal de estímulo-resposta, que lhe consumiria uma grande quantidade de energia.

Quando digo eventos futuros, não estou tratando de algo como a previsão do tempo ou adivinhação, mas de algo que envolve as nossas necessidades metabólicas e eventos em tempo real que nos acontecem a cada segundo -os dados que recebemos através dos cinco sentidos, o resultado do funcionamento do corpo em um dado momento, etc- e para isso, o nosso cérebro procura se antecipar no tempo, e desenvolver um conjunto de predições que acredita serem compatíveis com os dados que recebemos, tudo isso em milésimos de segundo e fora da nossa consciência.

Esta predição é um processo Top-Down (de Cima pra Baixo), o seu cérebro, quando diante do rosto de alguém que você conhece, irá formar primariamente este rosto a partir de seus dados internos, da sua memória e experiências passadas. Assim, reunirá os dados internos e formará um esboço daquilo que está diante de você e simulará isso em seu córtex visual, dentre outras áreas, sem mesmo considerar os dados recebidos pelos olhos. Só depois disso, é que contará com os dados recebidos pelos olhos para comparar com o que previu e fazer as correções necessárias para ajustar a imagem, se o couber. Se a pessoa que você está olhando for alguém que você conhece, seu cérebro será capaz de formar a imagem dela com um mínimo de correção possível, trabalhando quase que na totalidade, com seus dados internos e predições.

Este fato nos leva a uma compreensão importante: todos nós estamos em transe e alucinamos o tempo todo, e não temos como ter certeza fidedigna do real ou o contato concreto com a realidade. A realidade que pensamos conhecer, é tão somente uma representação e simulação interna daquilo que o nosso cérebro compreende como a realidade em um dado momento.

 

O Loop de Predição

Mas afinal, como se dá o processamento preditivo? E de que forma ele explica o funcionamento da hipnose?

Andy Clark, filósofo e cientista cognitivo, em seu livro Surfing Uncertainty: Prediction, Action, and the Embodied Mind propõe que a percepção se trata de uma alucinação controlada, e que o nosso cérebro tenta adivinhar antecipadamente o que está se passando dentro e fora do organismo para se preparar e agir adequadamente diante disso. Lisa Feldman, através da sua Teoria da Emoção Construída e seu livro How Emotions Are Made demonstra esse funcionamento de uma forma bem didática e simplificada, através do Loop de Predição.

Primeiro, o cérebro prediz o que poderiam ser os dados ou evento; Segundo, ele simula no organismo em tempo real as configurações neurofisiológicas dessa predição; Terceiro, ele compara o que previu com os dados recebidos do mundo externo e do próprio organismo; e Quarto, faz a correção necessária e inicia um novo loop, tudo isso em milésimos de segundo!

Por isso vivemos em transe e alucinamos o tempo todo. O processamento preditivo explica o motivo pelo qual escutamos alguém nos chamar ou o smartphone tocar quando na realidade não havia ninguém chamando e o smartphone não tocou. Demonstra o motivo pelo qual sentimos angústias ou medos pouco justificáveis diante de situações que não representam um risco real, como acontece em transtornos de ansiedade e humor, e por fim, explica como os fenômenos da hipnose funcionam, dentro do paradigma da ciência cognitiva e neurociência.

 

A Faculdade Crítica no Processamento Preditivo

Se todos nós vivemos uma alucinação controlada e não temos contato concreto com a realidade, por que nem todo mundo alucina e tem vivências de transe quando hipnotizado?

A explicação para isso é muito simples. Lembra que o Loop de Predição é composto por quatro partes? Pois bem, as duas últimas partes são cruciais para que a hipnose de rua, palco ou clínica aconteça e seus fenômenos se efetivem.

Nosso cérebro sempre começa com uma predição e simulação, e então faz uma comparação destas com os dados que estiver recebendo, para depois fazer uma correção na predição, ou mesmo manter a sua predição original. Quando o seu cérebro faz um loop de predição ele tem algumas alternativas:

  1. Ele pode fazer a comparação e escolher fazer uma correção, usando os dados recebidos externamente para aprimorar a predição.
  2. Pode receber os dados, fazer a comparação e desprezar os dados externos, mantendo a predição e simulação originais.
  3. Pode descartar a predição em detrimento aos dados externos concentrando-se na correção.
  4. Ou, pode simplesmente desprezar os dados externos dos cinco sentidos e do organismo e executar literalmente as suas predições.

O objetivo quando induzimos alguém ao transe formal é facilitar ao máximo a segunda e a quarta opção. E para isso, usamos algo denominado nicho afetivo, que é determinado por aquilo que o cérebro ache importante em um dado momento. Enquanto você lê esse texto, esse é o seu nicho afetivo. Para facilitar um nicho afetivo, temos que atrair o cérebro com atenção, surpresa, risco ou curiosidade. Nosso objetivo é o de engajar o cérebro em um nicho de informação em específico, com predições fortes e congruência o suficiente, para que ele possa se antecipar diante do que acontecerá a seguir, por meio de simulações incorporadas mais ricas que retroalimentem o loop com mais e mais predições semelhantes, levando o cérebro a ficar confiante naquele nicho afetivo, em suas predições futuras, e assim, desprezar outros nichos de informação que poderiam ser usados para fazer comparação e correção. Isso é o que se denomina popularmente como o rebaixamento da faculdade crítica.

Façamos um experimento: olhe para um objeto na sua frente. O que acontece com o restante dos objetos no ambiente? Eles ficam embaçados não ficam? E o objeto em que você se concentrou ficou bem nítido. Um efeito inverso ocorre quando você dirige a atenção para outro objeto especificamente. Esse é o nicho afetivo. Quando seu cérebro julga algo importante, passa a torná-lo mais nítido e iluminado para a sua consciência. Na hipnose, escolhemos o nicho de informação que deverá ocupar a atenção do cérebro da pessoa, enquanto as outras informações e dados, ficam cada vez mais embaçadas para a sua consciência, para que estas, não atrapalhem como correção em relação às predições que queremos valorizar. São as predições que valorizamos que devem retroalimentar o loop de predição e servir de comparação para os eventos que ocorrerão na sequência da experiência do sujeito. É assim, com o cérebro confiando em suas próprias predições, que se configura o que chamamos de transe profundo, estado sonambúlico, esdaile, etc.

Pense na atividade das mãos magnéticas, por exemplo. Quando você solicita a alguém para fazer a atividade, a pessoa imagina que há um ímã em cada mão, que se atraem um pelo outro. Ao ter a intenção de imaginar essa possibilidade, o cérebro começa a fazer inúmeros loops de predição, usando a experiência passada do sujeito com ímãs e também as sensações interoceptivas incorporadas para antecipar o fenômeno com uma simulação neurofisiológica completa, como se o evento estivesse acontecendo de verdade. Se o sujeito estiver engajado, desenvolverá um nicho afetivo, sentirá sensações diferentes na palma das mãos e antes que tenha consciência ou intenção, seu cérebro promoverá um pequeno movimento muscular ideomotor. Ao tomar consciência dessas sensações e movimentos, o sujeito reage às suas impressões e seu cérebro constrói outros loops, validando ainda mais a experiência das mãos se atraindo. Com o passar do tempo, a reação do sujeito às suas sensações e aos diversos loops, desenvolvem um realismo afetivo (transe), e então, o cérebro passa a ignorar os dados sensoriais reais -não tem nenhum ímã, e as mãos não se atraem por natureza- e começa a validar a alucinação sensório-motora-visual.

Resumindo, o cérebro não é uma simples máquina que reage diante dos estímulos do mundo externo. Ele é estruturado com bilhões de loops de predições que produzem uma atividade cerebral intrínseca. Predições Visuais, Auditivas, Olfatórias, Gustatórias, Somatossensoriais e Motoras, viajam através de todo o cérebro influenciando e se submetendo umas às outras. Essas predições são apoiadas sendo comparadas com os dados sensoriais do mundo externo, que seu cérebro pode priorizar ou ignorar.

A compreensão sobre o funcionamento do processamento preditivo do cérebro, pode facilitar muito a atividade do hipnotista ou hipnoterapeuta, seja em apresentações de hipnose de entretenimento, seja no entendimento da sintomatologia de um cliente na clínica, para facilitar e implementar mudanças mais eficazes.

Com este artigo, espero ter lhe inspirado a conhecer um pouco mais sobre a minha visão de como a hipnose funciona de uma perspectiva científica e como ela pode ser base para lhe auxiliar em seu desenvolvimento. A ciência cognitiva e a neurociência são áreas fascinantes e cruciais para se conhecer o funcionamento da mente humana e conseguem dar uma sustentação mais adequada para o trabalho com a hipnose clínica, sem crendices e ideias fantasiosas.

Welber Silva

Hipnoterapia e Hipnologia Aplicada

A hipnoterapia se refere à aplicação da Hipnose Clínica em uma abordagem de psicoterapia como amplificador e facilitador de processos destinados a promover o bem-estar e a harmonia emocional. Existem inúmeras vantagens na escolha da hipnoterapia como auxílio. Além de aumentar a qualidade de vida e promover um profundo autoconhecimento, a hipnoterapia nos leva a descobrir e dominar as nossas capacidades internas, pensamentos, emoções e fisiologia.

Em meu trabalho de hipnoterapia atuo com um processo generativo, de orientação mais Ericksoniana e naturalística, no qual facilito você a descobrir e utilizar as potencialidades e recursos naturais da sua mente e corpo, com o objetivo de gerar as soluções de que precisa. Em domínio das suas potencialidades, você se encontrará capacitado(a) para tornar-se o seu próprio terapeuta. Reúno nesse trabalho os mais de 20 anos de prática clínica com a hipnose e o conhecimento acumulado de diversos treinamentos e certificações nacionais e internacionais com algumas das principais autoridades e inovadores da área como James Tripp, Mike Mandel, Anthony e Freddy Jacquin, Melissa Tiers, Jeffrey Zeig, John Overdurf, Sean Michael Andrews, dentre outros. A hipnoterapia se caracteriza como um processo breve de mudança, que pode gerar resultados consistentes já a partir das primeiras sessões.

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