WELBER SILVAContato

Não é preciso decifrar a metáfora do outro

Quando alguém diz “é como se houvesse uma parede entre mim e aquilo que eu quero”, é quase automático procurar uma tradução. A parede pode parecer medo, insegurança, uma defesa ou alguma experiência do passado. Dependendo de nossa formação, talvez encontremos rapidamente uma explicação bastante plausível para ela. O problema é que, nesse momento, já começamos a trabalhar menos com a parede daquela pessoa e mais com aquilo que nós sabemos sobre paredes.

Metáforas têm esse curioso poder de nos convidar para dentro delas. Se alguém descreve um peso sobre os ombros, podemos imaginar responsabilidade. Uma estrada bloqueada pode nos fazer pensar em impedimentos; uma gaiola, em aprisionamento; uma luz distante, em esperança. Essas associações não são absurdas. Apenas pertencem, antes de tudo, a quem as faz, e nada garante que a organização da experiência de outra pessoa acompanhe o mesmo caminho.

Na Modelagem Simbólica, desenvolvida por James Lawley e Penny Tompkins a partir do trabalho de David Grove, essa diferença é levada bastante a sério. Em vez de perguntar o que uma metáfora “realmente significa”, o facilitador procura acompanhar como ela existe para quem a apresenta. Onde está essa parede? Que tipo de parede é essa parede? Há alguma coisa do outro lado? O interesse deixa de estar em encontrar uma explicação por trás da imagem e passa para a maneira como a própria pessoa vai reconhecendo e desenvolvendo as relações existentes em sua experiência.

Isso produz uma mudança sutil na posição de quem escuta. Se alguém diz que há uma parede à sua frente, o facilitador não precisa decidir que seria melhor derrubá-la, atravessá-la ou abrir uma porta. Nenhuma dessas transformações está contida necessariamente no que a pessoa disse. A parede pode precisar continuar ali. Pode mudar de tamanho, revelar alguma coisa que estava escondida, relacionar-se com outro elemento ou permanecer exatamente como está enquanto alguma outra parte da paisagem se modifica.

Por isso, a Modelagem Simbólica não é simplesmente uma conversa aberta sobre metáforas. Existe um método bastante específico de acompanhar as informações apresentadas. A Linguagem Limpa utiliza predominantemente um pequeno conjunto de perguntas, e o trabalho pode ser compreendido por quatro processos fundamentais: identificar elementos, desenvolver sua forma, relacioná-los através do espaço e relacioná-los através do tempo. Palavras, localização, gestos, direção do olhar, sequências e relações vão compondo aquilo que Lawley e Tompkins chamam de paisagem metafórica. Quanto mais essa paisagem ganha forma, menos o facilitador precisa preenchê-la com material próprio.

Nesse processo acontece algo interessante: quem vai construindo o modelo mais importante da experiência é a própria pessoa. Ela pode descobrir que a parede não está simplesmente “entre mim e o que eu quero”, mas que começa muito à esquerda, termina antes de chegar ao chão e fica transparente quando alguma coisa acontece atrás dela. Pode perceber que aquilo que parecia um único obstáculo possui relações que antes não estavam discriminadas. Essas descobertas não precisam ser traduzidas imediatamente para uma linguagem explicativa para serem relevantes. A pessoa pode aprender sobre a organização de sua experiência acompanhando-a em seus próprios termos.

David Grove chamou de “triálogo” essa configuração peculiar. Há o facilitador, a pessoa e a paisagem metafórica que começa a ocupar o espaço perceptual da conversa. O facilitador não desaparece desse processo: presta atenção, escolhe onde dirigir a atenção e decide que pergunta fazer a seguir. Mas procura fazer isso a partir das informações que a pessoa oferece, atualizando continuamente seu próprio modelo daquilo que ela está modelando. Ser “limpo”, portanto, não significa não fazer nada; significa exercer direção com uma disciplina particular sobre aquilo que se introduz na experiência do outro.

Também existe direção quanto à mudança. A Modelagem Simbólica trabalha tendo como referência aquilo que a pessoa gostaria que acontecesse: seu Resultado Desejado. Isso não significa que o facilitador já saiba como chegar lá ou que deva conduzir os símbolos para uma configuração considerada melhor. O Resultado Desejado funciona como uma referência dinâmica enquanto a paisagem se desenvolve. E ele próprio pode ganhar precisão ou se transformar à medida que a pessoa descobre mais sobre aquilo que está vivendo.

Às vezes, durante esse processo, alguma coisa muda. Uma parede se afasta, um peso encontra apoio, uma imagem antes imóvel começa a se mover ou surge algo que não estava presente. A metodologia não exige que o facilitador produza essa transformação e tampouco encerra o trabalho no instante em que ela aparece. A própria mudança passa a ser modelada: o que acontece agora, que efeitos ela tem sobre outros elementos, o que acontece depois, se aparecem dúvidas, dificuldades ou novas relações. Uma alteração simbólica pode ser importante naquele encontro sem que seja necessário proclamá-la imediatamente como uma transformação duradoura na vida da pessoa.

Talvez esse seja um dos aspectos mais exigentes desse modo de trabalhar: resistir à satisfação de compreender depressa demais. Quando reconhecemos uma metáfora familiar, nosso repertório inteiro pode oferecer significados antes que a outra pessoa tenha tido tempo de descobrir os seus. A Modelagem Simbólica propõe outra disciplina. Em vez de perguntar a nós mesmos o que a parede significa, acompanhamos a pessoa enquanto ela descobre que parede é aquela e o que passa a acontecer quando sua própria experiência recebe espaço suficiente para ganhar forma.

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